Deixe a rua surpreender você

I go out every day. When I get depressed at the office,
I go out, and as soon as I’m on the street and see people,
feel better. But I never go out with a preconceived idea.
I let the street speak to me.
Bill Cunningham

Já ouvi, e fiz muitas vezes, perguntas do tipo “o que um publicitário deve ter” ou, “o que é importante num estudante de comunicação”, a resposta sempre vem com a palavra informe-se. Leia, veja tv, filmes, etc, se alimente de referências. Nem sempre é fácil, seguindo a teoria de que o publictário é ocupado demais, cada dia é mais difícil tirar um tempo de respiro no trabalho pra  alimentar o hd.

Talvez, mais importante do que sempre estar atrás de referências seja  o hábito de observar o que acontece a sua volta. O que as pessoas compram no super, falam no ônibus, como se vestem, que lugares freqüentam. Aproveitar o tempo de deslocamento entre trabalho, casa, faculdade, academia para encher os olhos com pequenas coisas do cotidiano. Eis a síntese do flâneur, expressão cunhada no século XIX por Baudelaire, também associada a figura do bon vivant.

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Um baita exemplo de flâneur é o Bill  Cunningham , 80 anos, fotógrafo e repórter do NY Times, que todas as segundas-feiras alegra um pouco o meu dia. Bill tem uma coluna, chamanda On the Street, em que mostra fotos e comenta situações que viu na rua, sempre com foco em moda. O formato da coluna é uma atração a parte, é um slide show com narração em off, o tom de Bill e o modo como ele conta as histórias por trás das fotos deixam a On the Street ainda mais irresistível, melhor ainda é que, como quase todas as áreas interativas do NYTimes, o slideshow não demora horas pra carregar. A história de vida do Bill rende um outro post, três vezes o tamanho deste, quem ficar curioso, pode ler Bill por ele mesmo.

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Eleições pop (ou como eu prefiro acompanhar as eleições norte-americanas do que a brasileira)

Não é novidade que o Obama transformou o modo de se fazer campanha política e conseguiu atravessar fronteiras, atraindo simpatizandes ao redor do globo.  Até hoje não parei pra pesquisar quem está por trás de todo o marketing do de Barak, ainda assim por melhor que seja a estratégia, Obama também conseguiu muita mídia espontânea. Pensando em tempos em que o seeding é considerado muito importante para campanhas, inclusive em busca de uma certa credibilidade dada pelo ‘real’ consumidor, lembrei da primeira referência pop que tive de Obama.

Antes das camisetas, cartazes e máscaras, dos anúncios em jogos de videogame e da compra de espaço no horário nobre das principais televisões americanas, lembro de Obama porque Rory Gilmore foi cobrir a campanha dele. Sim, Rory Gilmore, a filha do seriado Gilmore Girls, que acabou em maio de 2007. Rory fazia um curso equivalente a Jornalismo, nos EUA não tem bem curso de Jornalismo ou Comunicação Social, foi editora do jornal de Yale e sua ‘ídala’ era Christiane Amanpour (que marcou quando na segunda guerra do Iraque fazia coberturas in loco, falando normalmente com bombas, muitas bombas caindo em segundo plano). Rory conseguiu um emprego em uma revista para cobrir toda a campanha de Obama rumo a nomeação e a uma possível presidência, como ela diz na série, talvez fique dois anos na estrada. Apesar de todo o modo confuso que a votação e a apuração ocorrem nos EUA, acho muito interessante o modo que a população se evnvolve nas eleições. Essa história de viajar, conquistar eleitores discursos a discurso, ocorre em diversos países, mas lá parece que é vivida de forma mais intensa, mesmo que metade da população não vote, por que não quer.

Rory e Obama (encontrei o vídeo num canal do You Tube pró Obama)

Acho que foi nas Eleições de 2004, quando ainda assinavámos Folha aqui em casa, acompanhei uma série de reportagens do Sérgio Dávila, cujo objetivo inicial era cobrir as eleições seguindo a Rota 66, imortalizada por Jack Kerouac. No livro do escritor beat temos muito da realidade norte-americana nos anos 40, Dávila tentou recuperar isso, com um olhar mais ‘eleitoreiro’. No blog dele os arquivos vão até 2005, não consegui recuperar nenhuma matéria.

Há tempos tinha um post sobre Obama na pauta,  o ânimo para escrever veio com um achado sobre McCain. Na verdade o blog da filha de McCain. Semana passada vi aqui e depois aqui, referências ao McCainBloguette, um verdeiro diário virtual das eleições, alimentado por Meghan McCain, filha mais velha do segundo casamento do senador. Ela tem 24 anos, é formada em História da Arte pela Universidade Columbia, em Nova Iorque (olhando por cima, dá pra pensar que seria uma pontecial democrata) e está vijando com os pais para a campanha. Meghan tem um estilo patricinha descolada, combina Louis Vuitton com All Star, sua banda preferida é Ramones e ela trabalhou na produção do Saturday Night Live, berço de democratas mais que declarados como Tina Fey, que tem feito caraterizações fantásticas da candidata a vice de McCain, Sarah Pallin.

Tina faz a Pallin

O blog tem mais fotos que textos e a blogueira tenta fazer algo na linha ‘gente como a gente’, falando um pouco de sua vida pessoal, mostrando cenas íntimas da família e principlamente muitaaaa empolgação com a campanha, seja numa viagem filantrópica com mãe pela Ásia, seja num econtro com Linda Ramone (!). O curioso de McCainBloguette é o seguinte: dizem que não é exatamente uma jogada de marketing, que foi criado por vontade de Meghan. Não sei quem lembra, no primeiro semestre de 2008, John McCain foi muito atacado porque falou mal da internet e de blogs, não consegui achar a data exata do início do blog de sua filha (a organização de arquivos ali é meio tosca) o post mais recente que tive paciência pra alcançar é de fevereiro de 2008.

Uma das principais armas de Obama foi o uso da Internet, que serviu tanto pra conquistar uma fatia mais jovem do eleitorado quanto pra espalhar a obamamania pelo mundo. Sigo dois perfis dele no Twitter, o segundo é o que tem mais seguidores no microblog, e no sábado ‘votei’ nele via TwitVote. Os dois candidatos tem sites com cara de Portal, o de Obama, com um ar mais clean, o de McCain mais polúido, cheio de banners.

Marketing ou não, o blog de Meghan McCain é um blog legal. Sim, é muito interessante ver a campanha pelos olhos da filha, ainda mais por se tratar de uma filha sem medo de mostrar um lado mais íntimo da família. Não soube de algo parecido na campanha de Obama e, salvas as devidas proporções, o blog dela me lembrou um pouco do Entreatos, que é um caso raro de cobertura pós-eleições.

E pra fechar com o pop, um dos vídeos da série Paris Hilton para presidente, resposta da patricinha a uma propaganda de McCain que criticava a forma como Obama havia se tornado celebridade, comparando-a a Paris Hilton e Britney Spears, dando a entender, é claro, que Obama perderia as estribeiras. Paris saiu-se muito bem na sua resposta, nisso acho que McCain mordeu a língua.

O vídeo original está no funnyordie.com (o embed não funcionou  e essa reportagem da CNN é divertida, quando Paris fala bitch, dá aquele piiii)

(un)coolhuntismo – parte I

Agora é tendência ser caçador de tendência. Já saiu na Veja, na Isto É, na Época, em vários programas de tv. Tentar descobrir o que se passa, não só para pensar a identidade de gerações, mas também para prever o que essas pessoas vão querer daqui algum tempo. E não importa o quão diferente, ou descolado, tudo isso é calcado na necessidade de pertencimento, de ser reconhecido como parte de um grupo, seja esse grupo de duas ou milhares de pessoas.

Na contramão dessa busca pelo mais moderno, mais bonito e mais legal, um grupo de Argentinos criou o UnCoolHunter, cujo lema é ‘na busca de não tendências antiglobais’. O portal, que tem o eixo principal em um blog, procura manifestações culturais que vão contra, ou que não se preocupem em seguir regras de bom gosto, beleza ou que sejam descoladas e modernas. De início, o que se vê por ali pode parecer deboche, mas não, o pessoal de UnCoolHunter, tem um objetivo, e até uma espécie de manifesto, escrito por Ariel Korzin, antropólogo e um dos inspiradores do movimento.  Em abril deste ano mandei um email respondendo aos chamados para correspondentes na capa do site.

Na busca pelas não-tendências os rapazes do UnCoolHunter, procuram correspondentes que contribuam com textos em inglês ou espanhol. Num portunhol muito bom, Javier Lourenço, fundador do site, me enviou esse manifesto, pedindo que lesse e analisasse se realmente queria participar do site. Acabei demorando pra ler e até hoje não respondi, mas cheguei a pensar pautas. Uma delas era uma matéria com Hélio dos Anjos, que no ano passado gozou de alguns meses de celebridade via internet, que o levaram até alguns programas da Globo. Natural da Serra gaúcha, Hélio começou a ficar famoso na região fazendo shows em boates, com  músicas românticas, de batida eletrônica e acompanhadas por coreografias impagáveis.

Ele ficou conhecido mais por ser uma figura caricata do que por sua originalidade, sim o rapaz fez uma grande mistureba e acabou criando um estilo só seu, sem saber, diria que ele seguiu uma cartilha modernista. O cantor teve certo hype, inclusive entre os descolados de plantão. Hoje, não se ouve falar muito dele por aí, pelo que pesquisei ele ainda faz shows pelas danceterias da serra. Por alguns meses o cool se apropriou do uncool.

Mantra

Preciso aprender a ser sintética. Sem perder o conteúdo.

Notes? Post-it.

Quando resolvi escrever sobre post-it pensei em fazer um histórico, mas a Wikipedia em inglês tem um tão bom que mudei de idéia. Resolvi procurar anúncios, caí num mar de opções e nenhuma me estimulou a escrever. Acabei voltando para Wikipedia e achei esta matéria do The Rake, que começa com as mudanças sofridas pelos escritórios chegada dos geeks (!) , me reanimei, não por causa dos geeks, e sim pelas mudanças, afinal, meu primeiro texto começava dizendo que mesmo com todos os gadgets existentes, na hora de planejar e apresentar idéias os Post-its são cada vez mais usados.

Ainda no artigo da Rake, eles fazem um histórico explicando toda a origem do produto a partir de Art Fry, engenheiro da 3M que é o pai das folhinhas canário. A partir da invenção de uma cola que ‘não é grudenta’, pelo químico Spencer Silver, a equipe da 3M passou a pensar produtos que utilizassem essa tecnologia. Foi criado um quadro de recados, com superfície pegajosa, tentando competir com os tradicionais quadros de tachinhas. A invensão não colou e acabou um fracasso de vendas. Aí, uma afirmação recorrente para quem trabalha com comunicação e design apareceu para a equipe da 3M:

To create a truly great product, you need a truly great problem.

E o problema apareceu num momento inesperado, clichê, mas nunca é demais lembrar da importância de estar atento as pequenas coisas e mais, de conectar tudo isso.  Fry sempre enchia de papéis o livro de cantos da Igreja, só que os papéis sempre caíam  e ele acabava se perdendo nas marcações. Surgiu aí uma idéia de como usar a nova cola.  Art Fry já estava envolvido em vários projetos na 3M,  para não perder a oportunidade de testar a nova idéia, utilizou uma brecha nos regulamentos da empresa: os funcionários têm 15% do seu tempo na empresa reservado para trabalhar em projetos que eles escolherem, e nesse tempo Fry desenvolveu os Post-its. Começou distribuindo para alguns amigos, e o boca a boca já fez efeito. Quando colocado no mercado o lucro de vendas estava previsto para cinco anos, ocorreu em dois. Art não ficou rico com a invenção , se aposentou há trinta e três anos, cinco anos depois do nascimento do Post-it, contudo, não demonstra arrependimento em relação aos seus quase quarenta anos de empresa, lá ele encontrou um ambiente estimulante, em que um insucesso não era razão para desistência e onde a colaboração e a união de diversos conhecimentos era o grande segredo.

Anúncio da 3M na Coréia Não entendo nada do que dizem,
fora Post-it, mas é divertido.

O parágrafo de cima parece até um post pago da 3M, mas esse não é um blog de aluguel. De fato, depois de toda a pesquisa, o Post-it acabou me trazendo de volta a questões que tem tudo a ver com o Kamikaze. Pensem comigo, numa jornada semanal de oito horas, 15% equivale a seis horas por semana, imagina se você se tivesse esse tempo no seu trabalho pra tocar projetos da sua escolha? Renderia?

Mais Post-its por aí

Campanha contra violência na Dinamarca, dica do Guerrilla-Inovation

Wallstrip – Buscando vídeos no You Tube, achei esse canal do site Wallstrip, que merece um post qualquer hora, já que sua proposta é misturar Wall Street e cultura pop. Eis o vídeo deles sobre o Post-it e a 3M

Todo publicitário é um suicida

Qualquer hora explico, agora a pauta tá cheia.


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